A União Europeia vive um ponto de viragem: a eletricidade gerada por energia solar e eólica superou, pela primeira vez, os combustíveis fósseis. Esse avanço muda a forma como produzimos, consumimos e pensamos a energia nas nossas casas.
| Tem pouco tempo? Aqui está o essencial: |
|---|
| ✅ Solar + eólica = 30% da eletricidade da UE em 2025, superando os fósseis (29%) ⚡ |
| ✅ Fotovoltaico cresceu +62 TWh (+20,1%) em relação a 2024, compensando a queda hídrica ☀️ |
| ✅ Evite depender do gás nas horas de ponta: tarifas inteligentes e baterias domésticas reduzem custos ⏱️🔋 |
| ✅ Carvão ; Polônia é a exceção (~50%) 🏭 |
Marco histórico: energia solar e eólica superam combustíveis fósseis na UE — por que isso aconteceu agora
Pela primeira vez, a eletricidade de fontes eólica e solar atingiu 30% do mix da União Europeia, ligeiramente acima dos 29% dos combustíveis fósseis. Este resultado coroa uma trajetória iniciada há mais de uma década e acelerada desde 2020. Em cinco anos, a quota de eólica e solar passou de 20% para 30%, enquanto os combustíveis fósseis recuaram de 37% para 29%. Trata-se de uma transformação estrutural, não apenas conjuntural.
O relatório European Electricity Review, do think tank Ember, ajuda a explicar o que está por trás desta viragem. Em 14 dos 27 Estados-membros, incluindo Portugal, Espanha, Dinamarca, Alemanha, Grécia, Luxemburgo, Estônia e Países Baixos, a produção conjunta de solar e eólica superou a de carvão, petróleo e gás ao longo de 2025. Em vários casos, mais de metade da eletricidade, durante pelo menos um terço das horas do ano, veio destas duas fontes. É um sinal inequívoco de que o sistema está a reconfigurar-se para operar com renováveis como base, e não como complemento.
Há também fatores meteorológicos e de mercado que empurraram esta mudança. A Europa enfrentou uma seca persistente que diminuiu a produção hidroelétrica em 12% e, em menor grau, a eólica em 2%. Paradoxalmente, isso reforçou o papel da energia solar: a produção fotovoltaica subiu +62 TWh (+20,1%) em relação a 2024, beneficiando de mais capacidade instalada e de maior exposição solar, inclusive em países do Norte. Em Portugal, a quota fotovoltaica subiu de 15% para 18,5% entre 2024 e 2025, ajudando a mitigar a menor produtividade do vento.
Do lado fóssil, o único combustível que cresceu foi o gás natural (+8%). O aumento veio sobretudo das horas de ponta, quando a baixa hídrica obrigou a recorrer a centrais a gás para garantir segurança de abastecimento. O efeito colateral foi um encarecimento médio de 11% no preço da eletricidade em relação a 2024. Ainda assim, a tendência estrutural é de queda do carvão — menos de 5% de share na maioria dos países — com uma exceção notória: a Polônia, onde o carvão ainda ronda os 50%.
No plano geopolítico, a redução da dependência de combustíveis importados é um argumento de peso. Como sublinham analistas da Ember, cada ponto percentual ganho por solar e eólica significa menos exposição a choques externos e mais previsibilidade para famílias e empresas. A liderança solar, aliás, já não é exclusiva de economias ricas: desde 2015, o mundo viu a energia solar multiplicar por dez e as economias emergentes (China, Índia, Brasil) passaram a dominar a expansão, sinal de que o custo caiu e a tecnologia amadureceu.
Se procura uma frase para guardar, fique com esta: a UE entrou definitivamente na era em que o sol e o vento estabilizam o sistema — não o contrário.

O que muda para a sua casa: contas mais baixas, conforto térmico e autonomia energética
Quando a macroeconomia da energia muda, o efeito chega ao seu contador. A ultrapassagem dos fósseis por solar e eólica traduz-se em preços mais estáveis a médio prazo, maior oferta de contratos de eletricidade com origem renovável e oportunidades para quem quer produzir localmente. Para uma família em um T3, em zona urbana de Portugal continental, instalar 4 a 6 kWp de fotovoltaico, numa cobertura sem sombras, pode reduzir significativamente o consumo da rede nas horas de sol e amortecer as oscilações tarifárias.
Imagine a Casa da Ana e do Miguel, um casal com dois filhos. Têm telhado virado a sul, 28 m² úteis e um perfil de consumo típico de 4.200 kWh/ano. Com um sistema de 5 kWp, microinversores e bateria de 5 a 10 kWh, ajustam o consumo: máquina de lavar, termoacumulador e carregamento do carro elétrico programados entre as 12h e as 16h. O resultado prático? Autoconsumo acima de 40–60%, menos energia comprada nas horas de ponta e maior conforto no verão com arrefecimento eficiente.
Gestos concretos para aproveitar a nova realidade
Não há milagres, mas há método. A combinação de bons hábitos com tecnologia acessível entrega resultados rápidos, sobretudo quando a rede é pressionada e os preços sobem em picos. Uma abordagem integrada — isolamento, sombreamento, equipamentos eficientes e fotovoltaico — multiplica os ganhos e evita arrependimentos.
- 🌞 Agende consumos: programe eletrodomésticos nas horas solares para elevar o autoconsumo.
- 🔋 Avalie uma bateria: 5–10 kWh cobre a noite típica e picos curtos; pense em time-shifting.
- 🏠 Melhore o envelope: isolamento em coberturas e paredes, sombreamentos, caixilharias eficientes.
- 🔥 Substitua gás por bomba de calor: A+ ou superior; aquece, arrefece e produz AQS com alta eficiência.
- 📲 Use tarifas dinâmicas: com automação simples, paga menos quando a eletricidade é mais barata.
- 🤝 Junte-se a uma comunidade de energia: partilhe excedentes no bairro e reduza custos coletivamente.
Para quem vive em apartamento, telhados partilhados e autoconsumo coletivo abrem portas. O regulamento já permite que vizinhos partilhem a mesma instalação e dividam benefícios, com contagem inteligente. A prioridade é sempre a mesma: reduzir dependências nas horas de ponta, quando o gás encarece a fatura. Com pequenas automações (relés Wi‑Fi, aplicações de gestão), a casa trabalha a seu favor sem esforço diário.
Se precisar de um ponto de partida, uma auditoria energética simples clarifica onde investir primeiro. O objetivo não é colecionar equipamentos, mas alinhar o que já tem com a nova lógica do sistema. O sol e o vento estão a fazer a sua parte; cabe a cada casa sincronizar-se com eles.
Em síntese operativa: organize a casa para consumir quando o sol brilha e reserve energia para quando a rede é mais cara.
Rede elétrica, baterias e flexibilidade: como estabilizar um sistema dominado por solar e eólica
Com a eólica e a solar no comando, o próximo desafio é a flexibilidade. A UE precisa de mais redes de média e baixa tensão, gestão ativa da procura e armazenamento distribuído. O relatório da Ember destaca que quase metade do armazenamento em larga escala concentra-se na Itália e na Alemanha — um bom começo, mas insuficiente para um sistema que acelera o desfasamento entre produção e consumo ao longo do dia.
Há três peças a articular. Primeiro, a rede: reforçar transformadores, cabos e subestações onde a fotovoltaica cresce mais depressa do que a capacidade de escoamento. Segundo, o armazenamento: baterias em bairros, edifícios e habitações que absorvem excedentes diurnos e devolvem energia nas horas de ponta. Terceiro, a digitalização: contadores inteligentes, algoritmos de previsão e mercados de flexibilidade para remunerar quem ajuda a estabilizar o sistema.
O papel do consumidor: de espectador a recurso do sistema
Para você, isso traduz-se em oportunidade. Uma bateria doméstica não serve apenas para “guardar kWh”; ela participa em serviços à rede, reduzindo picos que hoje são cobertos por gás. Com contratos adequados, pode receber por disponibilizar capacidade, num esquema behind-the-meter que remunera a flexibilidade. E se tiver carro elétrico, o Vehicle-to-Grid (V2G) é a próxima fronteira: a bateria sobre rodas a reforçar a estabilidade local.
As comunidades de energia são um acelerador. Armazenamento partilhado no condomínio, carregamento inteligente no parque e uma lógica de autoconsumo coletivo transformam o edifício num pequeno “buffer” para a vizinhança. Isto não é teoria: municípios europeus já provam o conceito, reduzindo picos e contas com software simples e regras claras de partilha.
Não menos importante é a eficiência passiva: casas bem isoladas e sombreadas deslocam consumos de climatização, diminuindo a procura quando a rede está sob stress. É energia “invisível”, mas poderosa. Cada kWh que não precisa de arrefecimento às 19h é um kWh que não precisa de gás nessa hora.
O recado é direto: sem flexibilidade, a transição encarece; com flexibilidade, a transição poupa. E a flexibilidade nasce tanto da engenharia das redes como das decisões de cada edifício.
Resumo acionável: armazenamento + automatização + eficiência passiva = contas mais baixas e rede mais estável.
Líderes, aprendizados e contrastes: o que Portugal pode trazer dos casos europeus
O mapa europeu de 2025 mostra uma Europa a várias velocidades, mas com a mesma direção. Dinamarca mantém-se como laboratório vivo da eólica, tanto onshore como offshore, combinando planeamento de longo prazo com aceitação social resultante de benefícios locais. Alemanha simplificou licenças para fotovoltaico em telhados e promoveu leilões estáveis, o que puxou a cadeia de fornecimento e a formação de instaladores. Países Baixos exploram de forma intensiva a solar em coberturas industriais e parques flutuantes, enquanto Espanha acelerou o autoconsumo com regras claras para partilha e medição virtual.
Portugal não parte de trás: cresceu de forma robusta no solar — 15% para 18,5% de quota fotovoltaica em um ano — e tem recurso eólico ainda por aproveitar em zonas interiores e offshore. O que falta? Agilidade na ligação à rede, reforço de linhas locais e programas municipais que integrem reabilitação energética com produção renovável. Em bairros antigos, soluções com telha fotovoltaica, sombreamento arquitetónico e bombas de calor de baixo ruído permitem ganhos sem descaracterizar fachadas.
O que fazer com as exceções
A Polônia ilustra que a transição não é uniforme. Com cerca de 50% de carvão no mix, o caminho passa por reconverter centrais para backup sazonal, expandir redes e mobilizar fundos para requalificar trabalhadores. A mensagem para o resto da UE é clara: onde o carvão cai para <5%, não há marcha-atrás, mas sim a necessidade de gerir bem a substituição para não sobrecarregar o gás nas horas críticas.
Há também o tema do armazenamento nacional: a Ember observa que metade da capacidade em larga escala está na Itália e Alemanha. Para Portugal, isso implica acelerar projetos de baterias municipais e de comunidades — principalmente em zonas com grande penetração fotovoltaica — e criar modelos de remuneração transparentes para a flexibilidade. Sem isso, a rede “antiga” trava o progresso “novo”.
Em síntese de política pública: licenciamento célere, redes reforçadas e leilões consistentes geram confiança e investimento. Em síntese de arquitetura: coberturas ativas, fachadas bioclimáticas e equipamentos eficientes reduzem consumos estruturais e libertam a rede nas horas apertadas. Portugal pode aprender com os vizinhos e adaptar as soluções ao seu clima, tecido urbano e cultura construtiva.
Ponto de chegada desta parte: liderança não é copiar; é adaptar rapidamente o que já funciona.
O futuro imediato até 2030: metas realistas e passos que você pode iniciar esta semana
Os números contam uma história otimista, mas exigente. Com renováveis totais a chegarem a ~48% da eletricidade da UE em 2025 (somando hídrica, geotérmica e biomassa às eólicas e solares), o passo lógico é cimentar o caminho até 2030 com investimento seletivo e regras estáveis. A prioridade declarada por analistas é reduzir a dependência do gás importado e expandir o armazenamento — não apenas em centrais, mas também em edifícios e bairros.
Para a sua casa, um plano em três frentes é eficaz. Primeiro, reduza a necessidade com eficiência: isolamento, vãos eficientes, sombreamento. Segundo, produza com fotovoltaico bem dimensionado e inversores preparados para baterias. Terceiro, gestione com automação leve e tarifas que recompensem o consumo fora de ponta. Esta tríade protege contra volatilidade e valoriza o imóvel sem complicações.
Roteiro simples de 7 dias
Para transformar intenção em ação, um roteiro curto ajuda a arrancar sem adiamentos. Não precisa fazer tudo de uma vez; a soma de pequenas decisões compõe uma casa preparada para a nova matriz elétrica.
- 📊 Dia 1: Recolha dados do seu consumo (12 meses), potências de pico e horários de maior uso.
- 🧭 Dia 2: Defina prioridades (conforto térmico, poupança, autonomia) e teto de investimento.
- 🌐 Dia 3: Peça 2–3 propostas de FV e bateria com estudo de sombreamento e curva de carga.
- 📦 Dia 4: Troque equipamentos-chave (bomba de calor, AQS, iluminação LED) por classes A++.
- 📲 Dia 5: Ative automações simples para turnos de lavagem, AQS e climatização em hora solar.
- 🤝 Dia 6: Explore comunidade de energia local ou autoconsumo coletivo no condomínio.
- 🧾 Dia 7: Escolha tarifa otimizada para time-of-use e reveja anualmente.
Se é proprietário em edifício histórico, soluções discretas existem: cortiças de alta densidade, estores exteriores, ventilação mecânica controlada silenciosa e módulos FV integrados em planos horizontais pouco visíveis. Em moradias, pergoleiros solares e coberturas ventiladas oferecem sombreamento e produção em um só gesto arquitetônico.
Fechando este percurso com uma ideia que vale ouro: comece pelo que controla hoje e deixe a rede trabalhar melhor por sua causa amanhã.
Source: www.publico.pt


