A Madeira dá um passo assertivo na transição energética ao abrir um concurso para 60 MW de energia solar e ao relançar um plano integrado para expandir as renováveis, com foco em estabilidade da rede e qualidade de integração no território.
Este movimento combina leilão por tarifa baseada no LCOE, reforço da infraestrutura elétrica e incentivos ao autoconsumo + armazenamento, criando um ecossistema robusto para investidores, famílias e entidades públicas.
| Pouco tempo? Aqui está o essencial: |
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| ✅ 60 MW para injeção na rede da Madeira, apenas solar fotovoltaico, com projetos até 5 MW por ponto 🌞 |
| ✅ Leilão com tarifa base pelo LCOE e seleção por maior desconto; vencedores têm FIT por 20 anos 📉📜 |
| ✅ Rede preparada: baterias de grande escala e subestações modernizadas para integrar renováveis com qualidade ⚡🔋 |
| ✅ Sinergia com +ENERGIA, UPACs e concursos até 1 MW em coberturas; foco na eficiência e no autoconsumo 🏠🔆 |
Madeira anuncia concurso para 60 MW de energia solar: impacto na rede e no território
O concurso agora lançado pela Secretaria Regional de Equipamentos e Infraestruturas disponibiliza 60 MW de capacidade de injeção na Rede Elétrica de Serviço Público da Madeira (RESPM), exclusivamente para produção fotovoltaica. A capacidade será distribuída por vários pontos da ilha, evitando concentrações excessivas e promovendo uma implantação mais harmoniosa nos diferentes concelhos. Em termos práticos, o reforço estimado ronda 90 GWh/ano, valor que corresponde a perto de 9,6% da produção elétrica anual atual na Região, situada na ordem dos 935 GWh/ano.
Há três ideias centrais no desenho do procedimento: limite de 5 MW por projeto, tarifa de referência calculada via LCOE e estabilidade tarifária por 20 anos para os vencedores. O limite por instalação protege a paisagem, evita extensões de painéis desproporcionadas e distribui melhor o risco, reforçando a resiliência da rede insular. Em ilhas, a solidez do sistema depende tanto da energia disponível como da sua dispersão geográfica e qualidade de controle.
A Empresa de Eletricidade da Madeira preparou a rede para este salto. A modernização de subestações e linhas elevou a capacidade de integração de renováveis, enquanto baterias de grande escala ajudam a absorver picos solares, gerir excedentes e estabilizar frequências. Esse investimento prévio reduz custos sistêmicos e acelera a curva de aprendizagem dos futuros empreendimentos. Para investidores, significa menor incerteza técnica; para a Região, ganhos claros em segurança de abastecimento.
O acesso é amplo: empresas locais, operadores nacionais e internacionais com histórico em renováveis, e fundos especializados em economia verde. O caderno de encargos e o programa do procedimento foram publicados no Jornal Oficial da Região e podem ser consultados, a partir das datas indicadas pela Direção Regional de Energia, no respetivo portal. A seleção assenta no desconto face à tarifa base (derivada do LCOE), o que puxa os custos para baixo sem abdicar de qualidade técnica e de critérios ambientais.
Imagine-se um consórcio a propor 4,9 MW em Machico, com arquitetura de baixo perfil visível, e outro a instalar 3,8 MW na Calheta, usando estacas aparafusadas para reduzir impacto no solo. Em ambos os casos, a proximidade a subestações reduz perdas e custos de ligação. Ao multiplicar exemplos como estes ao longo do mapa, a Madeira obtém uma produção distribuída que conversa bem com a topografia e o clima, aperfeiçoando o casamento entre eficiência e paisagem.
O verdadeiro valor do concurso está no efeito multiplicador: traz energia limpa a preço competitivo, dinamiza a cadeia local (projeto, montagem, operação e manutenção) e conversa com as metas regionais de descarbonização. Ao encerrarmos esta passagem pelo desenho do concurso, vale fixar a mensagem: capacidade nova, bem distribuída e financeiramente estável é o que dá tração a uma transição energética madura. A seguir, a questão-chave é entender a mecânica tarifária e como calcular viabilidade com rigor.

Tarifa baseada no LCOE e contrato FIT de 20 anos: avaliar viabilidade sem ilusões
O concurso usa como âncora uma tarifa base calculada pelo LCOE (Levelized Cost of Energy), medida internacional que sintetiza quanto custa gerar 1 MWh ao longo de toda a vida útil do projeto. Entram no cálculo CAPEX, OPEX, performance (incluindo degradação dos módulos), custo do capital e fatores fiscais. As propostas devem oferecer descontos à tarifa de referência, e a classificação final privilegia quem demonstra melhor eficiência econômica sem negligenciar a técnica.
Em ilhas, o LCOE tem nuances: custos logísticos, acessibilidades e contingências meteorológicas influenciam o CAPEX e o OPEX. O desenho do projeto também pesa: estruturas adaptadas à orografia, gestão de sombras e distância à subestação. Um erro comum é subestimar a degradação dos painéis ao longo de 20 anos, o que infla a produção estimada e “maquia” o LCOE. Outro deslize frequente é ignorar custos de seguros, reposições e contingências de peças, especialmente inversores.
Para chegar a um número robusto, recomenda-se uma abordagem metódica:
- 📌 Dimensionar produção com dados solares fidedignos (incluindo perdas térmicas, sujeira e sombras sazonais).
- 🧮 Projetar CAPEX com cenários de preço para módulos, estrutura, inversores, cabos e interligações.
- 🔧 Mapear OPEX realista: O&M, limpeza, monitoramento, seguros e reposições.
- 📉 Modelar degradação anual e disponibilidade técnica da central.
- 🏦 Calcular WACC sensível ao risco insular e ao perfil contratual do FIT.
Considere um caso ilustrativo: uma central de 5 MW com produção líquida prevista de 1.850 kWh/kWp/ano, degradação média de 0,4% e OPEX de 17 €/kW/ano. Se o CAPEX total ficar na faixa indicada para projetos insulares com soluções antissalitre e logística montanhosa, o LCOE tende a ser competitivo quando há proximidade à rede e bom fator de capacidade. Ainda assim, o que decide é a qualidade do projeto (sombreamento mínimo, perdas DC/AC controladas, aterramento impecável) e a eficiência na operação.
A força do modelo proposto pela Região é o FIT por 20 anos para vencedores, que garante previsibilidade de receitas e facilita a banca a estruturar financiamentos com prazos compatíveis. Estabilidade financeira reduz custo de capital e, em cascata, o LCOE. Por outro lado, o teto de 5 MW por projeto dissuade movimentos especulativos de grande escala, preservando coerência com o território e a rede.
Uma recomendação prática aos proponentes: apresentar cenários de sensibilidade (CAPEX ±10%, produção ±5%, WACC ±1 p.p.) para demonstrar a solidez do desconto oferecido. Em concursos competitivos, sinaliza maturidade e reduz o risco de suboferta insustentável. E lembre-se: transparência técnica é vantagem competitiva.
Com as bases econômicas no sítio, a estratégia ganha ainda mais força quando dialoga com o autoconsumo e a eficiência do lado da procura. É aí que entram os programas para UPACs e o reforço do armazenamento distribuído.
Autoconsumo, +ENERGIA e pequenos concursos: como particulares e entidades podem beneficiar
Enquanto o concurso de 60 MW impulsiona a geração utility-scale distribuída, a Madeira mantém uma frente ativa no autoconsumo e no armazenamento. O programa +ENERGIA tem apoiado a instalação de sistemas de produção elétrica para uso próprio, baterias acopladas e equipamentos para água quente e calor, servindo famílias, empresas e instituições. Registaram-se na Região dezenas de UPACs, somando cerca de 22 MW de capacidade e 3 MW de armazenamento associado, sinal claro de tração. Em 2025, foram publicados avisos com janelas de candidaturas ao longo do ano, acelerando projetos em coberturas e infraestruturas existentes.
Além disso, estão previstos novos concursos focados em parques até 1 MW em áreas já edificadas: telhados industriais, aparcamentos com sombreamento fotovoltaico, infraestruturas técnicas. Esta abordagem reduz a ocupação de solo, valoriza patrimônio construído e aproxima a produção do consumo, reduzindo perdas em cabos. Para condomínios, escolas e IPSS, a equação é ainda mais interessante quando combinada com baterias, carregamento de veículos elétricos e medidas de gestão de energia.
Exemplo prático: o “Condomínio Atlântico Verde”, no Funchal, decide instalar 200 kW em cobertura com um banco de baterias de 200 kWh. Com uma gestão horária simples (prioridade ao consumo diurno, armazenamento de excedentes e descarga nos picos do final da tarde), a fatura coletiva desce de forma consistente, enquanto a rede beneficia de menor pressão no horário crítico. Se, mais tarde, o condomínio integrar bombas de calor de alta eficiência para AQS, a sinergia com o solar fortalece-se.
No setor público, o quadro “Madeira 2030” abriu avisos para eficiência energética em infraestruturas municipais, com foco em redução de consumos, controle inteligente e reabilitação térmica. Quando uma escola substitui iluminação por LED, melhora a envolvente opaca e instala uma UPAC com armazenamento, cria-se um ciclo virtuoso: menor procura, maior fração renovável local e conforto térmico superior para estudantes e docentes.
Para quem pondera aderir, três passos são decisivos: diagnóstico de consumos (curvas horárias), estudo de cobertura (sombreamento, estado estrutural, impermeabilização) e plano de operação (regras para baterias, contadores inteligentes, eventual partilha de energia entre frações). Em empreendimentos turísticos, há ganhos adicionais na comunicação: hóspedes valorizam certificações e pegada de carbono reduzida, o que reverte em reputação e taxa de ocupação.
O ponto a reter é simples: o sucesso da transição nasce do encontro entre geração distribuída, eficiência e armazenamento. E a Madeira está a ligar essas peças com método.
Metas 2030-2050 e resiliência insular: baterias, subestações e desenho climático
A Região traçou objetivos ambiciosos: alcançar cerca de 55% de renováveis até 2030 e aproximar-se de 95% até 2050. Para um sistema insular, estas metas exigem orquestração fina entre geração solar, gestão da procura e armazenamento. O investimento em baterias de grande escala é peça central, funcionando como amortecedor para suavizar a curva do meio-dia e reforçar a rede no final da tarde. Complementarmente, a modernização de subestações melhora a qualidade de tensão e a segurança das manobras, condição indispensável quando se multiplica a produção renovável.
Resiliência, aqui, significa aguentar variações rápidas de nuvens, lidar com eventos climáticos e manter serviço em zonas remotas. É também sobre integração urbana: sistemas solares discretos, bem orientados, com arquitetura de baixo impacto e atenção ao ofuscamento. Em escolas e hospitais, onde a continuidade do serviço é crítica, baterias de suporte e micro-redes internas permitem operar com autonomia em incidentes e recuperar rapidamente após perturbações.
Do ponto de vista do edificado, a energia renovável brilha quando a envolvente é eficiente. Coberturas frias, ventilação cruzada, sombreamento por pergolados fotovoltaicos e fachadas com materiais de massa térmica elevada reduzem a carga sobre o sistema. Em hotéis e habitação multifamiliar, a combinação de bombas de calor para AQS com autoconsumo solar é, hoje, uma das soluções de melhor retorno, sobretudo quando sincronizada com baterias e controle por IoT.
A cultura local e o turismo pedem respeito pela paisagem. O limite de 5 MW por projeto e a preferência por áreas edificadas nos concursos até 1 MW mostram uma intenção clara: crescer com elegância, sem “manchas” visuais que prejudiquem vales ou miradouros. Essa preocupação não é estética apenas; ela sustenta a aceitação social, que é capital político para manter o ritmo da transição.
Outra frente é a formação. Quanto mais técnicos dominarem comissionamento, manutenção preditiva, cibersegurança e análise de dados de operação, mais sólida será a base para atingir 2030 e 2050. Nesse sentido, cada central bem operada é uma escola viva. A mensagem que fica: resiliência não é um produto que se compra, é uma competência que se constrói, todos os dias, na forma como se projeta, opera e cuida.
Com as engrenagens estratégicas alinhadas, falta detalhar o “como fazer” de um projeto entre 1 e 5 MW que respeite território, pessoas e números.
Projetos de 1–5 MW na Madeira: guia prático para candidaturas e desenho sustentável
Para transformar uma boa ideia num ativo que produz por décadas, o processo começa na escolha do local e termina numa operação impecável. O concurso para 60 MW recompensa quem mostra competência ao longo de toda a cadeia de valor, por isso um guião claro ajuda a não deixar peças soltas. Abaixo, um caminho pragmático para preparar a candidatura e o projeto executivo com solidez técnica e sensibilidade paisagística.
Seleção do sítio e ligação à rede
Mapeie cobertura solar, acessos e distância às subestações com capacidade disponível. Encostas em terraços podem oferecer ângulos de instalação favoráveis, desde que as estruturas respeitem estabilidade e erosão. A proximidade à rede reduz perdas e CAPEX de interligação; estudar alternativas de traçado evita surpresas em expropriações ou servidões. Uma análise de ruído em inversores e ventilação natural assegura conforto em zonas residenciais próximas.
Ambiente, paisagem e comunidade
Levante condicionantes ambientais e culturais desde cedo. Evite corredores ecológicos sensíveis e áreas com visibilidade dominante a partir de miradouros. Soluções de perfil baixo, paletes de cor discretas e sebes nativas quebrem linhas de vista. Planos de comunicação com a comunidade — sessões abertas, visitas de obra e divulgação de benefícios locais — fortalecem a aceitação social e reduzem risco de oposição.
Engenharia e operação
Escolha módulos e inversores robustos para ambiente marítimo, com proteção contra atmosfera salina. Estruturas com fixação adequada aos solos locais, gestão de águas pluviais e caminhos de manutenção bem definidos. No design elétrico, atente às correntes de curto-circuito, proteção contra arcos elétricos e qualidade de aterramento. Em operação, monitorização contínua, manutenção preditiva e planos de cibersegurança para sistemas SCADA são hoje indispensáveis.
- 🧭 Etapa 1: diagnóstico do local (topografia, solos, acessos, rede).
- 📐 Etapa 2: pré-dimensionamento (kWp, orientação, perdas, cablagem).
- 📑 Etapa 3: caderno ambiental e paisagístico com medidas mitigadoras.
- 💶 Etapa 4: modelo financeiro com cenários de sensibilidade ao LCOE.
- 🛠️ Etapa 5: projeto executivo e plano de O&M com KPIs claros.
- 🗂️ Etapa 6: candidatura completa e calendarização de obra realista.
Para quem prefere começar em menor escala, os concursos até 1 MW em coberturas e infraestruturas existentes são um trampolim ideal. Estacionamentos com sombreamento solar servem duas funções: conforto térmico e geração elétrica. Em armazéns, reforçar impermeabilização e cargas antes da instalação evita obras corretivas futuras. E não esqueça a compatibilidade com carregamento de veículos elétricos, tendência que cresce rapidamente na Região.
Ferramenta útil: a combinação de sensores de energia, previsão meteorológica e algoritmos de otimização simples pode elevar a produção útil em 3–6% sem qualquer painel adicional. Em cenários de leilão competitivo, essa margem conta. A peça final é a diligência documental: cumprir prazos, responder às clarificações e registar o projeto nas plataformas indicadas pela Direção Regional de Energia. A dica que vale ouro? Comece hoje pelo levantamento do seu local e pela curva de consumos — mesmo em escala industrial, esse é o primeiro mapa do tesouro.
Se há um gesto imediato que faz diferença, é este: identifique já a cobertura ou o terreno com melhor radiação e distâncias curtas à rede, e peça um pré-estudo técnico independente. Essa iniciativa acelera tudo o resto. 🌞
Fonte: www.dnoticias.pt


