Portugal aquece os dias frios impulsionado pela força das energias renováveis

O frio apertou e o país respondeu com energia limpa: nos dias mais gelados, a eletricidade que aqueceu as casas veio sobretudo de água e vento. Este guia mostra-lhe como tirar partido dessa força coletiva para aquecer a sua casa de forma eficiente, confortável e sustentável.

Peu de temps ? Voici l’essentiel : ⏱️
Hídrica e eólica foram decisivas nos dias mais frios, garantindo eletricidade abundante e com menor custo ambiental 🌬️💧
✅ Para aquecer com eficiência, priorize isolamento, estanquidade e bomba de calor bem dimensionada 🧱⚙️
✅ Evite resistências elétricas como solução principal; consomem muito e geram pouca inércia térmica ❌🔥
✅ Use tarifas bi/tri-horárias e pré-aqueça nos períodos mais baratos; a casa funciona como “bateria térmica” 💡🕒

Portugal aquece os dias frios impulsionado pela força das energias renováveis: dados, picos e o que significa para a sua casa

Em semanas de frio intenso, o consumo elétrico nacional superou marcas antigas e, ainda assim, o sistema respondeu com segurança e renováveis. Houve um recorde histórico de 2021 que caiu não uma, mas seis vezes num único mês, sinal de que o aquecimento doméstico passou a depender mais da eletricidade e menos de combustíveis fósseis. Isso só foi possível com hídrica e eólica a produzirem em grande escala, num inverno chuvoso e ventoso.

Os números ajudam a perceber a magnitude. Nos dias 6 (186,2 GWh), 7 (188,1 GWh), 8 (192,4 GWh), 20 (193,9 GWh), 22 (195,5 GWh) e 23 (198,1 GWh), segundo dados divulgados pela REN, a procura subiu a patamares que obrigariam, noutros tempos, a acionar centrais a gás durante longas horas. Desta vez, o grosso veio de água nas barragens e vento nas serras, com a solar a aliviar o perfil diurno. Para si, isto traduz-se numa conta de energia mais estável e numa rede menos vulnerável a choques externos.

Este comportamento não surgiu do nada. Portugal tinha fechado anos recentes com integrações renováveis muito elevadas: em 2024, meses como abril chegaram a cobrir cerca de 95% das necessidades elétricas com fontes limpas e, noutros períodos chuvosos, houve vários dias seguidos com produção totalmente renovável. Em 2026, o que mudou foi a combinação de maior capacidade instalada (eólica onshore e reforço hídrico), melhor gestão de rede e consumidores que transferiram parte do aquecimento para soluções elétricas mais eficientes, como as bombas de calor.

Para a sua casa, o recado é direto: quando chove e venta, a eletricidade tende a ficar mais limpa e, muitas vezes, mais barata nos períodos certos. Se o seu aquecimento for elétrico eficiente e a casa tiver boa envolvente térmica, é possível manter conforto com custos controlados. Ao mesmo tempo, aquecer por eletricidade em dias de vento e chuva reduz emissões e melhora a qualidade do ar local, evitando combustões ineficientes ou equipamentos antigos.

Picos, flexibilidade e oportunidade de poupança

As horas de ponta continuam a existir, sobretudo ao fim da tarde e início da noite. Mas a disponibilidade renovável também cresce nessas janelas, especialmente com vento. As redes já exploram flexibilidade do lado da procura, estimulando consumos deslocados para períodos favoráveis. Com um simples ajuste de horários e a utilização da inércia térmica da sua casa, consegue pré-aquecer antes da ponta e deixar a temperatura estabilizada sem esforço. Se tiver piso radiante ou acumuladores de baixa temperatura, este efeito é ainda mais eficaz.

Para ilustrar melhor, veja uma síntese de dias de recorde e da fonte que mais contribuiu. Não é um boletim oficial, mas um retrato útil para entender tendências e decidir quando aquecer com mais intensidade.

🗓️ Dia ⚡ Consumo (GWh) 🌿 Fonte dominante 💡 Oportunidade prática
6 jan 186,2 Hídrica 💧 Pré-aqueça no final da tarde; boa disponibilidade renovável
7 jan 188,1 Eólica 🌬️ Use termóstatos programáveis; vento sustenta a noite
8 jan 192,4 Hídrica + Eólica 💧🌬️ Carregue a inércia térmica antes da ponta
20 jan 193,9 Eólica 🌬️ Opte por bi-horária; concentre o aquecimento fora da ponta
22 jan 195,5 Hídrica 💧 Água abundante: priorize uso elétrico eficiente
23 jan 198,1 Eólica 🌬️ Manter temperatura constante é mais barato que picos

O ponto-chave é claro: a rede já consegue abastecer os picos de inverno com renováveis. Cabe a cada casa ajustar-se para colher os benefícios em conforto e custo.

portugal aquece os dias frios com energia sustentável, impulsionado pela força das energias renováveis que garantem conforto e proteção ao meio ambiente.

Como aquecer a casa com energias renováveis sem complicar: prioridades, escolhas e truques que funcionam

A melhor estratégia para aquecer com energia limpa começa onde o calor se perde: nas paredes, janelas e coberturas. A seguir, escolhe-se o sistema que transforma eletricidade renovável em calor com maior eficiência. Por fim, organiza-se o uso com horários e automação simples. Esta ordem de prioridades evita investimentos que não rendem e acelera resultados.

Prioridade 1: envolvente térmica. Portas que não vedam, janelas antigas, caixas de estore vazadas e tetos sem isolamento arrastam qualquer sistema para um consumo exagerado. Uma intervenção típica num T2 pode incluir calafetagem de juntas, cortina térmica bem ajustada, vedação de caixas de estore e, quando possível, substituição por vidros de baixo emissivo. Em moradias, o ganho de conforto é ainda maior ao reforçar o isolamento do sótão com materiais naturais como cortiça ou fibra de madeira.

Prioridade 2: bomba de calor. Para aquecimento, uma split ar-ar de boa classe energética pode apresentar COP 3–4 em condições amenas; nos dias muito frios esse valor desce, mas continua superior a 2 na maioria dos casos, o que já é significativamente melhor que resistências elétricas (COP ≈ 1). Quem tem piso radiante com bomba ar-água pode operar a baixas temperaturas de ida (30–35 °C) e obter eficiência superior, sobretudo se pré-aquecer antes da ponta e aproveitar a inércia da laje.

Prioridade 3: controles e hábitos. Termóstatos programáveis, sonda exterior nas bombas ar-água e zonas bem definidas em casa permitem aquecer onde faz falta, na hora certa. Transportar hábitos simples — como fechar estores ao anoitecer, usar tapetes em pavimentos frios e concentrar a presença em menos divisões nas noites mais geladas — pode poupar tanto como trocar de equipamento.

Passo a passo prático que dá resultado

  • 🧱 Vedar primeiro: fita de vedação nas caixilharias, espuma nas caixas de estore e escovas em portas minimizam infiltrações.
  • 🪟 Janelas eficientes: se não puder trocar já, aplique películas de baixa emissividade e cortinas “pesadas” bem dimensionadas.
  • ⚙️ Escolher a bomba de calor certa: dimensione para 85–95% da carga; evita ciclos curtos e melhora o conforto.
  • 🕒 Programar horários: pré-aqueça 1–2 horas antes da ponta e mantenha temperatura constante.
  • 🌞 Ganhos solares: abra estores ao sol de inverno e feche-os assim que escurece.
  • 💧 Humidade: mantenha 40–60%; desumidificar melhora a sensação térmica e reduz riscos de condensação.

Exemplo realista: num apartamento em Braga com 78 m², a troca de dois aquecedores a óleo por uma bomba de calor ar-ar de 3,5 kW, somada a vedação de janelas e cortinas térmicas, reduziu o consumo mensal em cerca de 35–45% durante vagas de frio, mantendo 20–21 °C. A chave foi controlar horários e fechar estores ao anoitecer, preservando o calor acumulado ao fim da tarde.

Evitar armadilhas comuns

Evite usar resistência elétrica como solução principal — é válida apenas como apoio. Não programe temperaturas demasiado altas (23–24 °C) que aumentam o consumo de forma exponencial; 20–21 °C é o “ponto doce” para a maioria das casas. Se o imóvel for muito permeável ao ar, dimensionar uma bomba de calor maior não resolve; primeiro feche as fugas. E, por fim, lembre-se: o conforto vem de um conjunto — envolvente + sistema + uso — não de um equipamento isolado.

Com este método, o aquecimento alinha-se com a força das renováveis sem complicações, e a sua fatura acompanha a descida.

Arquitetura bioclimática e materiais naturais: manter o calor com menos energia nos dias frios

Quando a casa ajuda, tudo fica mais fácil. Uma boa arquitetura bioclimática usa o clima a favor, reduz perdas e melhora o conforto sem depender constantemente do sistema ativo. Mesmo em edifícios existentes, há muito a fazer: orientar usos, potenciar o sol de inverno, criar barreiras ao vento e usar materiais naturais com bom desempenho térmico.

Comece pelos ganhos solares passivos. No inverno, as fachadas a sul podem receber sol generoso; deixar a luz entrar de forma controlada aquece superfícies e ar, elevando a temperatura de base. Vidros de baixa emissividade com fator solar adaptado à orientação deixam o calor entrar e retêm parte dele à noite. Plantas caducifólias no exterior funcionam como “brises” sazonais: deixam entrar sol no inverno e fazem sombra no verão.

A seguir, foque na inércia térmica. Paredes com massa — como taipa, tijolo maciço ou concreto — absorvem parte do calor e libertam-no lentamente. Aliado a um piso radiante de baixa temperatura ou a ganhos solares durante o dia, esse “reservatório” suaviza oscilações e reduz arranques frequentes da bomba de calor. Para quem vive em apartamento, tapetes densos e estantes cheias também oferecem pequenas reservas de calor e melhoram a sensação de conforto.

Os materiais naturais acrescentam desempenho e qualidade ambiental interior. A cortiça expandida, abundante em Portugal, isola, regula humidade e tem baixa pegada de carbono. A fibra de madeira e o cânhamo-cal unem isolamento e difusão de vapor, protegendo a casa de condensações ocultas. Em reabilitações, soluções “respiráveis” evitam patologias em paredes antigas e mantêm acabamentos saudáveis.

Isolamento, estanquidade e ventilação: o trio que faz a diferença

É fácil falar de isolamento e esquecer a estanquidade ao ar. Uma casa muito isolada, mas com frestas abertas, continua fria e dispendiosa. Fitas adesivas específicas para caixilharia, membranas em tetos falsos e atenção às passagens de tubagens eliminam “correntes invisíveis”. Ao mesmo tempo, a ventilação controlada (idealmente com recuperação de calor em projetos de maior ambição) renova o ar e retém energia, resolvendo a equação conforto + saúde.

Para orientar escolhas, veja uma comparação simplificada com materiais comuns em reabilitação ecológica. Os valores são típicos e ajudam a perceber o “caráter” de cada solução.

🧩 Material ❄️ Condutividade (W/m·K) 🏋️ Densidade (kg/m³) 🧠 Característica-chave
Cortiça expandida 🌿 ~0,040 100–120 Isola, regula humidade e é “carbono-positivo”
Fibra de madeira 🌲 0,038–0,045 140–190 Boa fase térmica; confortável em inverno e verão
Cáñamo-cal (hemp-lime) 🌱 ~0,090–0,120 90–120 Respirável, ideal em paredes antigas
Madeira maciça/CLT 🪵 ~0,120–0,130 450–550 Inércia moderada e conforto higrotérmico

Estudo de caso: numa moradia dos anos 80 em Viseu, a aplicação de 80 mm de cortiça no teto, vedação de caixilhos e cortinas térmicas aumentou a temperatura média noturna em 2–3 °C sem qualquer alteração no sistema de aquecimento. Quando, meses depois, chegou uma bomba de calor ar-água, a casa passou a manter 20–21 °C com estabilidade e menos ciclos de arranque.

Em resumo, a bioclimática soma “ganhos pequenos” que, juntos, criam conforto robusto. Quanto menos energia a casa precisar, mais anda “a reboque” do vento e da água — e isso sente-se, no corpo e no orçamento.

Da rede à tomada: tarifas, autoconsumo e gestão inteligente em picos de procura

Com a rede a fornecer mais energia limpa, a diferença faz-se na forma como você a usa. Tarifas bi-horárias e tri-horárias, gestão por agendamento e pequenos ajustes diários amplificam o efeito das renováveis e reduzem a fatura. Pense no seu aquecimento como uma “bateria térmica”: carrega-se nos períodos certos, liberta conforto quando precisa.

Primeiro, conheça a sua tarifa. Se já tem bi-horária, programe o aquecimento nos vazios e mantenha a temperatura com incrementos suaves na ponta. Em tri-horária, o cheio costuma concentrar-se no fim da tarde; pré-aqueça 60–120 minutos antes. Termóstatos com “arranque otimizado” ligam mais cedo quando está muito frio e evitam picos violentos no horário caro.

Depois, olhe para o autoconsumo. Mesmo em inverno, painéis solares fotovoltaicos geram boa parte do dia. Se tiver bomba de calor ar-água, aponte água de AQS para as horas solares e reduza o setpoint da casa ligeiramente após o pôr do sol para evitar que o sistema compense em cheio. Um pequeno depósito tampão (buffer) melhora a estabilidade e aproveita melhor janelas de produção.

Finalmente, explore gestores de energia e apps dos comercializadores. Ver gráficos de consumo em tempo real muda hábitos: é imediato perceber o impacto de ligar um radiador antigo versus usar a bomba de calor no modo Eco. Em edifícios com vários apartamentos, uma estratégia coordenada de aquecimento fora da ponta pode reduzir a potência contratada de cada fração, baixando custos fixos.

Rotina simples para noites frias

Em tardes ventosas e chuvosas, a disponibilidade renovável tende a ser alta. Aproveite para pré-aquecer, fechar estores ao anoitecer e estabilizar a casa entre 20–21 °C. Se tiver piso radiante, antecipe ainda mais. E, se acorda com a casa fria, programe o “arranque” uma hora antes da sua rotina diária nos períodos de energia mais barata.

O resultado é uma casa confortável que segue a maré das renováveis: aquece quando há abundância e modera quando o sistema está mais pressionado. É assim que cada consumidor se torna parte ativa da transição.

Preparar os próximos invernos: checklist e plano de ação que respeitam o seu orçamento

O inverno passado mostrou que a energia limpa está pronta. Falta garantir que a sua casa também esteja. A melhor forma é um plano por etapas, começando pelo que custa pouco e rende muito, e avançando para investimentos estruturais quando fizer sentido. Não é necessário fazer tudo de uma vez; o segredo é a ordem certa.

Comece com um “diagnóstico leve”. Caminhe pela casa numa noite fria com uma vela ou incenso e observe onde a chama oscila — é a forma mais simples de detetar infiltrações. Repare nas janelas que embaciam: ali a superfície está fria e a humidade é mais alta. Tire fotos térmicas com o telemóvel (há apps e pequenos acessórios que ajudam) para visualizar pontes térmicas. Com esta informação, avance para ações rápidas.

  • 🪟 Hoje: vedar caixilhos, fechar estores à noite, ajustar cortinas.
  • 🔧 Este mês: rever parâmetros da bomba de calor, instalar termóstato programável, criar duas ou três “zonas de uso” à noite.
  • 🧱 Nos próximos 3–6 meses: isolar teto de sótão com cortiça/fibra de madeira, melhorar caixas de estore, avaliar substituição de janelas mais expostas.
  • ⚙️ Quando possível: instalar bomba de calor dimensionada ao espaço, considerar piso radiante de baixa temperatura em renovações de maior fôlego.

Para famílias com orçamento limitado, a regra é priorizar o que diminui as perdas. Um rolo de vedação e um kit de cortina térmica bem montado podem baixar a potência necessária em noites frias, permitindo que a bomba de calor funcione com menos esforço. Se vive num edifício com condomínio ativo, proponha intervenções conjuntas em coberturas e fachadas: o custo por fração baixa e o impacto soma-se.

Vale a pena documentar tudo: fotos, temperaturas, consumos. Ao longo de um mês de frio, é comum ver reduções de 20–30% no consumo para a mesma temperatura de conforto apenas com ajustes de vedação, horários e setpoints. Quando chega a altura de investir numa janela nova ou numa bomba de calor, esses dados ajudam a escolher a solução certa, nem a mais cara, nem a mais fraca.

Uma ação simples para começar já: escolha dois horários fixos de pré-aquecimento diário nas próximas noites frias (por exemplo, 06:30–08:00 e 17:30–20:00), feche estores e verifique se a temperatura se mantém estável nas horas seguintes. Se funcionar, consolide; se oscilar, ajuste vedação e cortinas primeiro. O inverno recompensa quem prepara a casa como um casaco bem abotoado: o vento sopra lá fora, o conforto fica do lado de dentro.

Source: jornaleconomico.sapo.pt

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