Em 2025, Portugal bateu um recorde de consumo de eletricidade e, com isso, viu crescer as emissões do setor elétrico em mais um milhão de toneladas de CO2. Este é um sinal de alerta — e também uma oportunidade para agir com inteligência.
| Peu de temps ? Voici l’essentiel : | Resumo ⚡ |
|---|---|
| ✅ Ponto-chave #1 | Consumo recorde de 53,1 TWh em 2025 levou a mais produção em centrais a gás e a +1 milhão de toneladas de CO2 🏭 |
| ✅ Ponto-chave #2 | Renováveis ficaram nos 68% do consumo — valor alto, mas a crescer pouco, enquanto a procura subiu 📈 |
| ✅ Ponto-chave #3 | Erro a evitar: eletrificar sem armazenamento e gestão da procura cria picos cobertos a gás e emissões extra ⚠️ |
| ✅ Bónus | Solucione com baterias (meta de 2 GW), autoconsumo coletivo e carregamento inteligente — menos picos, mais eficiência 🔋 |
Em 2025, o consumo de energia em Portugal resultou em um aumento de um milhão de toneladas de CO2: causas e números que importam
O ano de 2025 ficará marcado por um facto incontornável: o consumo de eletricidade atingiu 53,1 TWh, um novo máximo histórico, crescendo 3,2% face a 2024. Esta variação, equivalente a +1,7 TWh, não foi acompanhada por reforço proporcional das renováveis. O resultado foi um uso acrescido de gás natural nas centrais de ciclo combinado, traduzindo-se em +1 milhão de toneladas de CO2 na geração elétrica, como sublinhou a associação ZERO.
Por que é que a procura subiu? Vários sinais convergiram: maior eletrificação de processos industriais, substituição de caldeiras a gás ou gasóleo por bombas de calor em edifícios, e mais veículos elétricos nas estradas (já mais de 200 mil). Estes movimentos são positivos, mas exigem planeamento: sem armazenamento e gestão de picos, a rede recorre a gás quando as renováveis não chegam.
O que está por trás do máximo histórico de 53,1 TWh
São tendências de fundo. A climatização elétrica cresceu, sobretudo em cidades do litoral, com edifícios recentes a optar por bombas de calor. A digitalização também pesa: data centers e serviços intensivos em TI consomem de forma contínua. Já no setor residencial, a adoção de equipamentos mais eficientes reduziu o consumo unitário, mas o aumento do número de equipamentos e a maior eletrificação anularam parte dessas poupanças.
Um exemplo concreto vem de um condomínio em Almada que substituiu caldeiras por bombas de calor: baixou o consumo de gás, mas o pico noturno sem fotovoltaico próprio subiu a fatura elétrica. Só quando o condomínio instalou programação horária e pré-aquecimento de água em horas de menor preço é que conseguiu reduzir o pico — uma lição simples sobre o impacto da gestão da procura.
Como 1,7 TWh extra empurrou o gás para cima
Mesmo com um ano favorável à hidráulica e à eólica, as renováveis cresceram pouco em termos relativos. Em valores absolutos, atingiram cerca de 37 TWh, um recorde, mas quase estagnado face a 2024. A diferença entre a procura e a produção limpa, num sistema sem armazenamento suficiente, foi preenchida por 7,9 TWh de eletricidade gerada a gás — +54% num ano. Aqui reside a origem do milhão de toneladas adicionais de CO2.
Repare como um detalhe técnico tem efeitos macro: sem baterias e com interligações ibéricas por vezes saturadas, os excessos solares ao meio-dia desvalorizam o preço, travam investimentos e, paradoxalmente, não ajudam quando chega o pico das 20h. É como ter água a jorrar ao meio-dia e sede à noite — sem garrafa para guardar.
O papel do apagão de 28 de abril
O episódio de 28 de abril expôs vulnerabilidades. Por razões de segurança, reforçou-se a produção nacional a gás devido à incerteza nas importações de Espanha. Eventos assim mostram que a resiliência exige capacidade firme e flexibilidade: armazenamento distribuído, protocolos de resposta da procura e melhor coordenação ibérica.
O insight central aqui é claro: eletrificar é indispensável, mas eletrificar com inteligência é decisivo.

Compreendido o retrato, vale explorar o que travou o crescimento renovável e como superar os bloqueios com soluções práticas — do telhado à rede nacional.
Renováveis estagnadas em 68% e 7,9 TWh de gás: o que travou o progresso e como destravar
Apesar de a eletricidade de origem renovável ter coberto cerca de 68% do consumo em 2025, o ganho foi insuficiente face ao salto na procura. O país mantém um patamar elevado, mas a dependência do gás nos picos cresceu. O que aconteceu? Uma combinação de entraves administrativos, falta de reequipamento eólico e abrandamento na instalação de solar fotovoltaico (centralizado e distribuído).
Há projetos licenciados que não avançam por razões económicas: quando o sol é abundante e a procura é baixa, o preço cai e a remuneração do fotovoltaico encolhe. Sem baterias e com interligações ibéricas limitadas, exportar nem sempre é viável; logo, novos projetos aguardam melhores condições de rede e de mercado. Este ciclo vicioso traduz-se em energia limpa desaproveitada a meio do dia e maior recurso a gás ao entardecer.
Solar fotovoltaico: como sair do travão
Três frentes destravam o avanço: simplificação de licenças em Áreas de Aceleração, incentivos ao armazenamento e promoção do autoconsumo coletivo. Quando um bairro partilha produção e baterias, reduz o pico local e a necessidade de reforços dispendiosos na rede. Um exemplo vem de um quarteirão em Braga que instalou 400 kW de solar partilhado e 600 kWh em baterias: além de poupar na fatura, cortou os picos em 35% nas tardes de inverno.
Eólica: o potencial do reequipamento
Muitos parques operam com turbinas antigas. Substituí-las por modelos mais eficientes (repowering) aumenta a produção no mesmo local, com menor impacto territorial e custos nivelados. É uma forma de “crescer” renováveis sem expandir área. Ao conjugar repowering com contratos de fornecimento ao fim da tarde (PPA com perfis horários), resulta num corte direto da necessidade de gás.
Rede e interligações: o elo esquecido
Sem redes modernas, a transição abranda. Reforçar transformadores, digitalizar a gestão e ampliar interligações com Espanha permite escoar excedentes e importar com segurança em horas críticas. O episódio de abril demonstra a importância desta malha. Planeamento e obras de rede não são “glamour”, porém são a base para integrar mais renovável sem curtailment.
Quer aprofundar com um guia visual e claro sobre estes desafios e soluções? Procure um vídeo que explique a relação entre renováveis, gás e emissões, com foco prático para consumidores e decisores.
A mensagem-chave desta parte é objetiva: sem remover bloqueios ao solar/eólica e sem rede/armazenamento, cada kWh extra de procura puxa o gás.
Casas e edifícios: 10 decisões práticas para reduzir CO2 sem perder conforto
Grande parte da solução nasce onde todos vivem e trabalham. Edifícios eficientes baixam a procura e achatam picos, aliviando a rede e reduzindo o espaço do gás. As ações seguintes são pragmáticas e priorizam retorno e conforto.
Começar pela envolvente: onde o kWh mais barato é o que não se usa
Janelas eficientes, isolamento contínuo e corte de infiltrações estabilizam a temperatura e diminuem a potência de climatização necessária. Num T3 em Aveiro, a substituição de caixilharias antigas por modelos com rutura térmica e sombreamento móvel reduziu 28% do consumo de aquecimento, com conforto superior e menos ruído.
Climatização elétrica bem afinada
Bombas de calor com controlo modulante e programação por horários adequam-se aos preços e à disponibilidade renovável. Pré-aquecer a casa e a água quando há sol/vento e reduzir output nas horas de ponta corta emissões e fatura. Integre termostatos por divisão, curvas climáticas e ventilação com recuperação de calor.
Fotovoltaico, baterias e autoconsumo coletivo
Um sistema de 4–6 kW num telhado familiar cobre boa parte do diurno. Ao somar uma bateria de 5–10 kWh, transfere-se produção para o fim da tarde, ajudando a evitar a rampa do gás. Em prédios, o autoconsumo coletivo permite que quem não tem telhado usufrua da produção do vizinho, com repartição justa via contadores inteligentes.
- 🏠 Isolar primeiro: envolvente térmica antes de comprar mais potência
- 🔧 Ajustar depois: bombas de calor com parâmetros bem configurados
- ☀️ Produzir localmente: PV no telhado ou partilhado no prédio
- 🔋 Guardar excedentes: bateria dimensionada para o pico da noite
- 🕒 Usar em horas certas: programação horária de AQS e climatização
- 🚗⚡ Carregar EV fora do pico: lento e inteligente, preferindo o meio-dia solar
- 📡 Monitorizar: medidores inteligentes e metas mensais de kWh
- 🌬️ Manter qualidade do ar: ventilação com recuperação
- 🤝 Organizar vizinhanças: comunidades de energia
- 📑 Ver incentivos: fundos e deduções ativos no país
O caso do “Condomínio da Rua do Sol”, no Porto, é ilustrativo: após isolamento de coberturas, ajuste de bombas de calor e instalação de 80 kW de PV com partilha dinâmica, as necessidades de pico caíram 32% e o conforto térmico subiu. Tudo isto funciona melhor com informação simples e acionável. Recursos como o Ecopassivehouses.pt reúnem ideias testadas em obra, sem promessas mágicas — apenas soluções que fazem sentido, a custos racionais.
Ideia a fixar: edifícios eficientes são a primeira central renovável de qualquer país.
Armazenamento e flexibilidade: cumprir 2 GW em baterias e ir além, para cortar picos e CO2
A meta nacional de 2 GW de baterias no Plano Nacional de Energia e Clima não é um detalhe: é a ponte entre muita renovável à hora errada e menos gás quando a rede precisa. Armazenar kWh solares do meio-dia para as 20h reduz a “rampa do entardecer”, a mais cara e poluente. Mas baterias não estão sozinhas — há flexibilidade térmica, hidráulica, e até carros elétricos a funcionar como micro-reservas.
Baterias residenciais e comunitárias
Em casas, 5–10 kWh cobrem pico familiar típico; em condomínios, 100–500 kWh partilhados achatam picos do elevador, AQS e bombas de calor. Em pequenas indústrias, armários modulares de 1–2 MWh evitam contratos de potência muito altos. O segredo não é o tamanho, é o algoritmo: carregar quando há renovável barata, descarregar no pico, mantendo autonomia para a noite.
Armazenamento térmico e água quente
Depósitos de AQS e inércia térmica das paredes são “baterias” escondidas. Aquecer água entre as 11h e as 15h em dias solares e baixar a potência à noite gera economia real. Hotéis e hospitais já utilizam esta lógica há décadas; trazê-la para prédios residenciais é a forma de democratizar a flexibilidade com custos baixos.
Veículo-para-rede (V2G) e gestão de frotas
Frotas empresariais estacionam muitas horas. Com carregadores bidirecionais, um parque de 50 viaturas pode devolver energia no pico, remunerando a empresa e ajudando a rede. Em bairros, V2G transforma carros em reserva para emergências. Não é ficção: pilotos europeus mostram redução de picos superiores a 20% em agregados de pequena escala.
Quer ver experiências reais e explicações claras sobre como baterias e flexibilidade derrubam emissões sem comprometer o conforto? Procure um vídeo orientado a utilizadores e gestores de edifícios, com exemplos de V2G e baterias comunitárias.
Resumo útil desta parte: armazenar e deslocar consumo é tão importante quanto produzir limpo.
Planeamento integrado para 2026: do bairro à rede nacional, do projeto à obra
Depois do alerta de 2025, o foco está em planear bem e executar melhor. Três pilares aceleram a viragem: licenciar com critério e rapidez, reforçar redes e interligações e ativar consumidores como parte da solução. Tudo com métricas simples: menos picos locais, mais horas de operação renovável e queda consistente de CO2 por kWh.
Avaliação Ambiental Estratégica e Áreas de Aceleração
Concluir a Avaliação Ambiental Estratégica oferece previsibilidade e desbloqueia as Áreas de Aceleração de Renováveis. Isso atrai investimento e prioriza locais com menor conflito ambiental e melhor ligação à rede. Com regras claras, os projetos deixam de ficar “no papel” e passam a entregar kWh limpos nas horas que interessam.
Cidades que consomem menos por desenho
O urbanismo também reduz emissões. Bairros compactos, com sombreamento arborizado, fachadas ventiladas e mobilidade suave diminuem a necessidade de climatização e transporte motorizado. Reabilitar edifícios existentes com soluções passivas (sombreamento, isolamento, ventilação eficiente) baixa consumos estruturais, durando décadas.
Checklist rápida para agir hoje
Se procura um primeiro passo que faça diferença, a sequência abaixo equilibra custo, impacto e simplicidade:
- Auditar consumos com dados reais (faturas, curvas de carga) 📊
- Eliminar fugas térmicas: caixilharias, sombreamento e isolamento 🧱
- Configurar bombas de calor com programação horária e curvas climáticas 🕒
- Instalar PV dimensionado ao perfil e prever futura bateria ☀️
- Adicionar bateria quando a curva de carga pedir e o preço justificar 🔋
- Organizar autoconsumo coletivo no prédio ou no bairro 🤝
- Carregar EV fora de pico; ponderar V2H/V2G quando disponível 🚗
- Assinar tarifa dinâmica e ativar alertas de picos/horas solares ⚡
- Monitorizar resultados e ajustar trimestralmente 🔍
- Partilhar aprendizados na comunidade local e em redes de conhecimento 🌍
Para quem deseja aprofundar, recursos práticos e casos de estudo estão disponíveis em plataformas de partilha como o Ecopassivehouses.pt, com foco em soluções reais, sustentáveis e replicáveis. A ação simples para começar hoje? Defina uma meta de reduzir 20% do seu pico entre as 19h e as 22h com três gestos: programar AQS para o meio-dia, deslocar o carregamento do EV e ajustar a climatização uma hora antes do pico. Pequenas mudanças, repetidas coletivamente, evitam ligar mais uma turbina a gás amanhã.
Source: www.publico.pt


