O mês de outubro trouxe um sinal de alerta: a quota das renováveis no consumo de eletricidade em Portugal desceu para 50,2%, o valor mensal mais baixo dos últimos dois anos. Vale a pena perceber o que aconteceu e, sobretudo, o que pode ser feito em casa e na cidade para tornar o sistema mais resiliente.
Peu de temps ? Voici l’essentiel :
| ✅ Pontos-chave | Porque interessa a você |
|---|---|
| 🔻 50,2% de renováveis em outubro (mínimo de 2 anos) | Meses com vento, sol e água desfavoráveis exigem mais importações e gás |
| ⚡ Consumo elétrico a crescer ~2,5% Jan-Out | Mais procura pede eficiência e gestão inteligente do lado do utilizador |
| 🔥 Gás natural em alta no setor elétrico (crescimentos > 100% em outubro) | Impacto em custos e emissões; armazenamento e flexibilidade são essenciais |
| ☀️ Fotovoltaico +28% de produção no ano | Bom momento para reforçar PV, baterias e autoconsumo coletivo |
Portugal regista o menor consumo de energia renovável dos últimos dois anos: causas, números e o que significa
Quando a produção renovável abastece apenas 50,2% do consumo mensal, algo incomum aconteceu no sistema elétrico. Em outubro, a combinação meteorológica foi francamente adversa: a hidroeletricidade operou com um índice de produtibilidade de 0,64, a eólica em 0,82 e a solar em 0,93 (a média histórica é 1). Traduzindo: menos água armazenada, menos vento útil e radiação abaixo do ideal, sobretudo em dias-chave. Numa rede onde a variabilidade do clima “comanda” a geração limpa, estes índices pressionam o equilíbrio.
O resultado fez-se sentir no mix: a produção não renovável cobriu cerca de 18% e o restante 32% veio de importação. Esta fotografia contrasta com a tendência do ano: entre janeiro e outubro, as renováveis garantiram 68% do consumo, ligeiramente abaixo dos 72% do período homólogo anterior, mas ainda muito relevante. A repartição mostra um sistema diversificado: cerca de 26% hídrica, 24% eólica, 13% fotovoltaica e 5% biomassa.
Há, contudo, um dado entusiasmante: a produção fotovoltaica continuou a acelerar, com um crescimento anual na ordem dos 28%. Mesmo quando o sol de outono já não é o de junho, a expansão de projetos e do autoconsumo mantém o gráfico a subir. É um lembrete claro para quem planeia o próximo investimento: a curva de custo do solar tem sido amiga, e a conjugação com armazenamento começa a fazer cada vez mais sentido.
No consumo, a procura elétrica cresceu cerca de 2,5% de janeiro a outubro face ao mesmo período do ano anterior (cerca de 2% ajustando temperatura e dias úteis). Essa escalada tem raízes no aumento do uso de equipamentos elétricos, na eletrificação de processos e transportes e numa economia que voltou a ganhar ritmo. Pergunta óbvia: se a procura sobe e o clima falha, como manter as emissões e os custos sob controlo?
A resposta reside em três frentes. Primeiro, eficiência do lado do consumo, onde cada casa e cada serviço podem cortar picos com soluções simples. Segundo, armazenamento distribuído, que suaviza os vales do solar e os buracos de vento. Terceiro, flexibilidade: deslocar usos para horas mais limpas, ativar baterias, gerir carregamentos e integrar contratos dinâmicos. São peças que, juntas, tornam este “outubro difícil” um teste superável, não um desastre inevitável.
Para encerrar esta leitura dos números, um exemplo concreto: a Família Martins, em Braga, viu a sua fatura estabilizar nos últimos meses graças a um pequeno banco de baterias domésticas e a um programador simples de aquecimento de águas por bomba de calor. Mesmo com menos renováveis no sistema, a casa consome mais nas horas de menor preço/maior quota renovável. É exatamente este tipo de ajuste fino que muda o jogo.

Menor quota renovável, maior pressão no gás natural: impactos em custos, emissões e abastecimento
Quando a produção limpa abranda, o sistema aciona o que está disponível. Em outubro, o mercado do gás natural registou um avanço expressivo, com um aumento homólogo próximo de 18% no total mensal. A fatia ligada à produção de eletricidade com gás disparou—em termos homólogos mensais, a evolução foi superior a 100%, compensando a quebra no segmento convencional (clientes industriais e comerciais) que registou quedas entre 5,8% e 7,7%.
O aprovisionamento manteve-se concentrado no terminal de GNL de Sines, com a interligação a Espanha a representar perto de 8%. No acumulado do ano, destacaram-se Nigéria e Estados Unidos, responsáveis por cerca de 48% e 43% do abastecimento nacional, respetivamente. Para o consumidor final, o que significa este “back-up fóssil”? Maior exposição a preços internacionais, volatilidade de mercado e uma pegada carbónica mais elevada nos meses meteorologicamente desfavoráveis.
Em termos práticos, dois efeitos aparecem na fatura e no clima. Primeiro, o custo marginal da eletricidade tende a subir quando entram centrais a gás para fazer face ao vazio do vento e da água. Segundo, as emissões do setor elétrico aumentam nesses períodos, diluindo as boas médias anuais. É por isso que a gestão da procura é tão valiosa: reduzir consumo de ponta ou deslocá-lo para janelas com mais solar/eólica é, hoje, um gesto tão impactante como instalar mais um painel.
Veja o caso do Condomínio Atlântico, em Matosinhos. A garagem comum tem carregadores partilhados para veículos elétricos e um simples algoritmo de agendamento: carregamento concentrado entre as 02h e as 07h e em horas de sol nos fins de semana. Em semanas “pobres” de vento, o sistema faz o shift para horários de menor intensidade de emissões e menor preço. Resultado? Menos custos coletivos e melhor uso da energia disponível.
Para empresas, a mesma lógica aplica-se com contratos de resposta à procura: reduzir consumo quando o sistema está stressado e ser remunerado por isso. Em 2026, a maturidade desses modelos aumentou e as soluções digitais estão mais acessíveis para PMEs, que agora podem aderir com investimentos modestos, apoiadas por operadores e agregadores.
A mensagem-chave aqui é simples: um mês fraco em renováveis não é um retrocesso estrutural, mas um convite a reforçar resiliência e flexibilidade. É a diferença entre suportar a variabilidade com inteligência ou pagá-la em picos de custo e emissões.
Se procura estudos visuais e discussões técnicas abertas sobre estas dinâmicas, vale a pena explorar análises independentes e comparações com anos pré e pós-pandemia, sempre cruzando dados de DGEG, ADENE e REN para evitar leituras parciais.
Da rede para a sua casa: estratégias de eficiência e conforto para enfrentar meses com menos renováveis
Num edifício bem pensado, cada kilowatt conta duas vezes: poupa na fatura e diminui a pressão sobre a rede quando o vento e a água falham. Em Portugal, a melhoria do envelope térmico e o ajuste de comportamentos dão resultados rápidos. Quando o mix fica mais caro e mais emissor, eficiência, gestão e autoprodução são o trio que estabiliza custos sem sacrificar conforto.
Prioridades que funcionam em qualquer casa
O primeiro passo são medidas “silenciosas” e duradouras: isolamento de coberturas, estanquidade ao ar, correção de pontes térmicas e sombras sazonais. Uma moradia em Viana do Castelo reduziu 28% do aquecimento anual apenas com isolamento em teto e substituição de vãos com caixilharia estanca. Sem trocar equipamentos, o consumo baixou nas horas críticas—precisamente quando a rede mais precisa.
No aquecimento de águas e climatização, bombas de calor bem dimensionadas oferecem COP elevado, sobretudo se combinadas com fotovoltaico e programação horária. A Casa do Ribeiro, em Leiria, instalou 4 kWp de PV e uma bateria de 5 kWh: a bomba de calor para AQS arranca ao fim da manhã, quando há excedente solar. Resultado? Menos consumo noturno e menor dependência de horas caras.
Gestos simples com efeito de sistema
- 📆 Programar AQS e máquinas de lavar para janelas com mais sol/vento (quando possível)
- 🌡️ Definir setpoints prudentes: 19–20 ºC no aquecimento e 25–26 ºC no arrefecimento
- 🔌 Eliminar cargas fantasma com tomadas inteligentes e cortes totais noturnos
- 🪟 Garantir ventilação controlada: renova o ar sem perder calor
- ☀️ Apostar em estores e brises para “desligar” o sol excessivo no verão
O autoconsumo coletivo em prédios é outra alavanca. No Edifício São Vicente, em Lisboa, um sistema partilhado de 30 kWp alimenta frações e serviços comuns, com repartição dinâmica. O administrador implementou uma regra simples: bombas de rega e elevadores de menor tráfego operam preferencialmente entre as 11h e as 16h. Com isto, os condóminos “consomem o próprio sol” e aliviam a rede em períodos críticos.
Para fechar esta parte, um conselho direto: comece pelo que não se vê—o envelope—e depois instale tecnologia que “pensa por si” (cronotermostatos, plugues inteligentes, apps dos comercializadores). Em meses meteorologicamente fracos, este conjunto faz a diferença entre pagar o pico ou contorná-lo com elegância.
Antes de passar a soluções sistémicas, retenha esta ideia: sem eficiência no edifício, qualquer quilowatt renovável terá menos impacto do que poderia.
Planeamento para 2026: fotovoltaico em alta, armazenamento e flexibilidade como escudo contra a variabilidade
Com a produção fotovoltaica a crescer cerca de 28% no ano, 2026 impõe uma agenda clara: acelerar PV, expandir armazenamento (doméstico e de bairro), incentivar flexibilidade (V2G, tarifas dinâmicas, resposta à procura) e reforçar interligações sem adiar a eficiência. A chave está no equilíbrio entre investimentos e ganhos mensuráveis, tanto na rede como na escala do quarteirão.
Combinações que entregam valor
O pacote “PV + Bateria + Gestão Horária” tem mostrado paybacks estáveis em residências e pequenas empresas. Baterias de 5–10 kWh são suficientes para absorver excedentes solares diários e cobrir picos do fim da tarde. Em zonas com comunidades de energia, o “banco” pode ser partilhado, melhorando a utilização e baixando custos por utilizador.
Nos transportes, a carregamento inteligente já é rotina em muitas garagens. Em 2026, a oferta de V2G (vehicle-to-grid) tornou-se mais madura: frotas empresariais começam a vender flexibilidade às redes em horários de ponta. Para famílias, a recomendação é simples: definir janelas de carregamento noturnas e, quando possível, absorver excedentes solares a meio do dia.
| 🔧 Solução | 🎯 Benefício principal | 🪜 Passo seguinte recomendado |
|---|---|---|
| PV residencial 3–6 kWp | Autoconsumo e proteção contra picos 💡 | Adicionar bateria 5–10 kWh e programar AQS |
| Bateria condominial | Suaviza picos e partilha ganhos 🏢 | Contrato de flexibilidade com agregador |
| Tarifa dinâmica + automação | Otimiza custo e emissões ⚖️ | Integrar medição em tempo real |
| V2G (frotas/condomínios) | Receita extra e apoio à rede 🚗 | Definir regras mínimas de autonomia |
Para municípios, o foco pode passar por “ilhas” de energia: escolas com PV, baterias e sombreamento, que funcionam como abrigos energéticos em eventos extremos. Em bairros, iluminação pública com gestão adaptativa reduz consumos sem perda de segurança. A herança é dupla: menos contas e mais resiliência comunitária.
Em suma, um outono com menos renováveis não impede um ano robusto nem adia metas. Obriga, sim, a acelerar a integração de tecnologia que transforma incerteza climática em previsibilidade energética.
Como ler os números sem cair em alarmismos: de 68% no ano ao mínimo mensal de 50,2%
Os números pedem contexto. No acumulado do ano, as renováveis abasteceram 68% do consumo elétrico, valor sólido num país que, em 2024, já registara meses acima de 70%. Outubro foi uma “fotografia” com vento, sol e água abaixo do normal, não um filme de retrocesso. A própria evolução intra-anual confirma: a procura cresceu e o solar continua a expandir-se.
Para interpretar dados mensais, é útil cruzar três eixos: clima (produtibilidade), oferta (mix e importações) e procura (consumos e horários). Quando os três se alinham para o lado “desfavorável”, a rede chama gás e importa. Quando o sol regressa e os ventos sopram, a balança inclina-se novamente para a eletricidade limpa. O desafio é reduzir a amplitude desta gangorra.
Há também sinais positivos fora da rede: o consumo de gás no segmento convencional tem descido, refletindo eficiência e eletrificação progressiva. Ao mesmo tempo, a potência fotovoltaica instalada em telhados e parques continua a entrar ao serviço. É aqui que os cidadãos e os municípios encontram espaço de ação com impacto mensurável.
O que podem fazer cidadãos e autarquias já este trimestre
Para famílias, a prioridade passa por auditorias energéticas rápidas, selagem de infiltrações, calibração de bombas de calor e programação de equipamentos. Para autarquias, projetos-piloto de resposta à procura em edifícios municipais podem servir de laboratório: deslocar consumos, validar controlos e partilhar resultados com a comunidade. Tudo isto casa bem com a publicação “Energia em Números” e os dados abertos da DGEG, que ajudam a orientar decisões.
Considere o Centro Escolar do Vale, no interior: com PV no telhado, baterias modestas e horários de ventilação ajustados, o consumo de pico caiu 21%. Nos dias mais fracos de vento, a escola mantém conforto sem desencadear cargas simultâneas desnecessárias. Para os alunos, o projeto é também ferramenta pedagógica: aprender a ligar conforto, energia e clima.
Se outubro ensinou algo, foi isto: resiliência não é um slogan, é um conjunto de decisões pequenas e repetidas. A cada ajuste, o sistema fica menos exposto ao humor do céu.
Do “outubro difícil” ao ano inteiro: checklist prático para estabilizar custos e emissões em sua casa
Para transformar um mês fraco em oportunidade, vale seguir um roteiro claro e acionável. Esta lista organiza prioridades por impacto e facilidade de execução, com atenção à realidade de apartamentos e moradias.
Checklist essencial (e realista)
- 🧱 Envelope primeiro: isolar cobertura e selar infiltrações; retorno rápido e conforto imediato
- 🪟 Vidros e caixilharias: eliminar condensações, ruído e perdas térmicas
- 🌡️ Bombas de calor: AQS e climatização com COP alto; programar fora dos picos
- ☀️ PV 3–6 kWp: começar pelo telhado; avaliar baterias 5–10 kWh quando houver excedentes
- 🔁 Automação simples: cronotermostatos, tomadas inteligentes, apps do comercializador
- 🚗 Carregamento VE: janelas noturnas e meio-dia solar; considerar partilha condominial
- 🤝 Comunidades de energia: autoconsumo coletivo para prédios e ruas
- 📊 Contrato certo: tarifas dinâmicas ou bi-horárias para “surf” de preços e emissões
Um exemplo rápido fecha a ideia: no Bairro do Pombal, em Évora, dois prédios vizinhos criaram uma comunidade de energia. Um tinha telhado amplo; o outro tinha mais consumo diurno. Com partilha digital, o excedente de um cobre o pico do outro. Mesmo num mês “magro” de vento, o conjunto manteve a fatura sob controlo.
Se tiver de escolher uma ação para hoje, faça um agendamento simples: AQS entre 11h–16h nos dias de sol e equipamentos de maior consumo fora das 19h–21h. É um gesto discreto que estabiliza custos e ajuda a rede a respirar quando o céu não colabora.
Guarde esta frase: quando o clima falha, a boa arquitetura e a boa gestão entram em cena—e ambas estão ao seu alcance.
Source: cnnportugal.iol.pt


